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Otimismo para superar desafios

Otimismo para superar desafios

Por Genilson Cezar
Valor Econômico

Mesmo diante de indefinições no cenário político e econômico do país, com sinais ainda incertos sobre a capacidade de retomada mais firme do crescimento, os operadores logísticos encontram razões para um certo otimismo. Maurício Barros, CEO da DHL Supply Chain, multinacional alemã que atua na área de logística, armazenagem e distribuição no mercado brasileiro, está entre aqueles que acreditam que o mercado vai avançar positivamente.
A melhora gradativa dos indicadores macroeconômicos e as permitidas com o novo governo federal indicam um cenário mais positivo para o Brasil em 2019″, afirma. Como consequência, ele vê como certo o crescimento do volume de carga transportada e armazenada, o que deve impulsionar as operações e os negócios.
Esta visão é compartilhada por Fabrício Orrigo, diretor de vendas e engenharia da norte-americana Penske Logística. “Estamos percebendo uma leve retomada dos volumes nos clientes atuais e um aumento na demanda de novos projetos, o que significa que as empresas estão sentindo mais segurança para investir em novas operações”, concorda.
Apesar de todas as dificuldades da economia, o desempenho das operadoras logísticas brasileiras, nos últimos anos, não traz grandes queixas. O faturamento total estimado em 2017, por exemplo, foi de RS 81,4 bilhões, de acordo com levantamento realizado pela Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol), em parceria com a Fundação Dom Cabral. Em 2016, a receita total estimada atingiu RS 65,2 bilhões. Atualmente, pelo menos 270 empresas operam neste setor (eram 159, em 2014), com um quadro de funcionários em torno de 1,5 milhão de pessoas, entre empregos diretos, terceirizados e das cadeias periféricas.
Só de tributos, foram recolhidos aos cofres públicos perto de RS 13 bilhões, de acordo com o estudo da Abol. Trata-se, portanto, de um mercado forte, com resultados nada desprezíveis, financeiramente. Mas ainda há muitos desafios a vencer, atesta Carlos Cesar Meireles Vieira Filho, presidente da Abol, que reúne 25 dos grandes grupos de operadores logísticos em atuação no Brasil.
A falta de investimentos em infraestrutura é um dos maiores, adianta o dirigente. “O que se investe em infraestrutura de transporte, armazenagem e logística é muito pouco, é algo como 0,6% do PB”, diz é sofrível, onera os custos logísticos das empresas. Nenhuma ação que precisa ser desenvolvida para impulsionar o setor pode ter sucesso com esse nível de negligência”, afirma Vieira Filho.
O longo período de crise na economia serviu para que muitas empresas enxugassem suas estruturas, adotassem ações e estratégias alternativas para compensar a perda de lucratividade, como aponta Adriano Thiele, COO da logística, pertencente ao conglomerado JSL, cujo faturamento anual é superior a R$ 7 bilhões. “Reorganizamos nossa empresa, ajustamos as nossas bases operacionais e agora estamos preparados para esse novo ciclo de desenvolvimento do país, com velocidade para atender à demanda da indústria”, diz ele.
Com um quadro de colaboradores superiora 20 mil pessoas, uma frota de 6.490 veículos, entre caminhões e implementos, mais de 400 clientes em 16 setores da economia, a empresa tem como foco, segundo Thiele, o aumento da eficiência e a redução do custo. ‘Temos apostado e investido muito em tecnologia para ganhar essa eficiência e mais competitividade”, afirma.
Azeitar o desempenho operacional tem sido um direcionamento comum adotado por vários provedores de servi, de logística. “Conseguimos obter racionalizações importantes implantando novos sistemas de gestão e reorganizando nossa malha de transporte, com aumento. frota própria, criação de hubs de distribuição e pontos de cross docking e criação de torres de controle”, conta Maurício Barros, da DHL Supply Chain.
A Penske, por sua vez, aproveitou para fazer alguns ajustes para compensara redução de volumes dos últimos anos. Mesmo assim, não parou os projetos nem os investimentos em andamento e concentrou os recursos na implantação de uma nova plataforma de transportes. “Com sistemas e processos mais robustos, estamos agora preparados para fornecer o melhor suporte aos clientes nesta retomada do mercado”, destaca.
Outra que encontrou um caminho satisfatório para superar os desequilíbrios econômicos que afetaram o desempenho do setor foi a Braspress, uma das principais transportadoras de encomendas expressas e carga fracionada no Brasil, com um plantei de 1,2 mil veículos. “Criamos novas frentes de trabalho, diversificando nosso portfólio, apostando em segmentos que sofreram menor impacto com a desaceleração do consumo, como é o caso da indústria têxtil, de confecções e calçados, onde temos participação majoritária na movimentação das encomendas”, relata Luiz Carlos Lopes, diretor de operações.
Num mercado extremamente concorrido, os investimentos em estrutura, tecnologia e capacitação são elementos essenciais ao crescimento, argumenta Djalma Vilela, presidente do grupo catarinense Multilog. Nos últimos dois anos, a empresa passou por grandes aquisições, como as operadoras Elog Sul e Elog Sudeste, que pertenciam à EcoRodovias, por um total de RS 205 milhões. Focou em inovação e se consolidou entre os maiores operadores logísticos nos principais corredores de importação e exportação no Sul do país. Mais RS 60 milhões estão previstos para serem investidos neste ano.
Segundo Vilela, a empresa fechou 2018 com faturamento de RS 525 milhões e estima um crescimento de 20% de receita ao longo deste ano. A inovação foi a aposta da francesa FM Logistic, especializada em armazenagem, transporte e gerenciamento da cadeia de suprimentos. A empresa montou uma equipe dedicada à busca de soluções técnicas para proporcionar aos clientes “maior flexibilidade, confiabilidade, qualidade e produtividade”, confia Ronaldo Fernandes da Silva, novo diretor de operações da subsidiária brasileira. Tecnologias inovadoras traídas ao Brasil, como técnicas para operações de identificação e validação dos produtos, tomaram o processo logístico muito mais ágil e eficaz. E aumentaram, segundo ele, de 30%a 40% a produtividade dos clientes.
Empresa brasileira, com 30 anos de existência, focada na prestação de serviços para as áreas de manutenção, facilities e logística, a Maneis Logística manteve seu foco em processos de melhoria contínua. Para o diretor-presidente, Marcelo Felipe, independentemente do cenário econômico favorável ou desfavorável, a empresa sempre busca alternativas para melhoria de eficiência. “Questões como padronização de frota, uso de tecnologias embarcadas ou de monitoramento e otimização de rotas são avaliadas e implementadas de forma frequente”, acrescenta. Além da persistente falta de investimentos na precária infraestrutura de todos os modais de transporte – rodoviário, ferroviário, marítimo e aéreo -, os operadores logísticos têm obstáculos igualmente sérios a superar, no cenário fiscal, como é o caso da Lei do Frete, que instituiu a Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas, após a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018. “A falta de uma definição clara sobre a questão da tabela de fretes mínimos gera incerteza no mercado e é um desafio para os operadores, que em sua maioria não trabalham com frota própria de veículos”, adverte Fabrício Orrigo, da Penske Logística.
Para Rafael Vanzella, sócio da área de infraestrutura da Machado Meyer Advogados, de São Paulo, há dúvidas sobre diversos aspectos da lei, inclusive sobre a própria constitucionalidade, com efeitos imediatos bastante relevantes às empresas e aos transportadores de carga. Com a decisão do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), todos os processos judiciais, em qualquer instância, que envolvam a aplicação da Lei do Frete estão suspensos. Assim como as sanções do descumprimento da lei permanecem plenamente aplicáveis, sem direito a recursos individuais para sanar dúvidas e incertezas. “Ou seja, a via judicial para solucionar dúvidas específicas inerentes aos casos concretos ficou obstada, e a possibilidade de sanção aplicável pela ANT, que permanece vigente, tornou-se uma permanente ameaça”, afirma.
Há diversas reações no mercado. “Algumas empresas aumentaram imediatamente suas tarifas, outras entenderam que a regra deveria ser aplicada somente a alguns casos específicos e, ainda, há as que resolveram simplesmente não alterar em nada sua conduta e correr o risco de sofrer uma eventual penalidade”, relata Barros. E há os que preferem não se arriscar. “Buscamos alternativas onde é possível, utilizando, por exemplo, a cabotagem e o transporte aéreo”, conta Barros, da D.
Entre as opções para minimizar o impacto da tabela de frete, ganha força a locação de frota de veículos, a terceirização, um nicho ainda pouco explorado no país’. A JSL Logística está bem posicionada nesse segmento, depois de ter adquirido, no ano passado, os 9% restantes do capital social da Vamos Locação de Caminhões, Máquinas e Equipamentos, que ainda pertenciam ao grupo paulista Borgato, informa Thiele.
A Vamos atuava na locação e comercialização de caminhões, máquinas e equipamentos pesados voltados ao setor agrícola. De olho nesse nicho, a partir deste ano a PepsiCo, que tem uma das maiores frotas próprias de veículos de transporte de cargas do setor no país (cerca de três mil veículos), passou a oferecer serviço de frete de carga para terceiros, sendo a primeira companhia a realizar esse tipo de experiência de supply chain na América Latina. “Além do faturamento advindo dos veículos que estariam vazios depois de finalizado o transporte, a venda de frete ainda contribui positivamente para o meio ambiente, com menos emissões de CO2, diminuindo a quantidade de veículos nas vias de rodagem”, destaca Eduardo Loyola, gerente de transportes da control tower da PepsiCo Brasil. “Outra questão relevante é que temos rotas por todo o Brasil, já que possuímos fábricas e clientes no pais inteiro. Então, é natural que possamos atendera vários tipos de cliente”, afirma.Valor Econômico
15 de março de 2019
(Notícia na Íntegra)